Entrevista

2º Congresso Brasileiro sobre Morte e Morrer

ENTREVISTA

“A questão do olhar e do lugar sobre a morte”


Cedric Tempel Nakasu – CRP 01/9970

Psicólogo formado pela Universidade Católica de Pelotas - RS com formação em Psicologia da Saúde e Hospitalar. Diretor Técnico do Instituto Agilità. Docente e Coordenador do curso Estudos em Morte e Morrer. Curso de Atenção e Intervenção em Crises de Emergência Pós-Desastre no Instituto 4 Estações - SP. Atendimento de apoio em situações de perda e luto, pacientes terminais e familiares e clínico a crianças, adolescentes, adultos e idosos. Palestrante. Coordenador do NESPEMM - Núcleo de Estudos, Pesquisa e Ensino em Morte e Morrer e da Equipe de Psicologia Hospitalar do Instituto Agilità. Coordenador do Núcleo de Intervenção em Crise e Emergência do Instituto Agilità.



  1. De onde surgiu a idéia de realizar um congresso com este tema “Morte e Morrer”?

Surgiu através da discussão, juntamente com demais profissionais da área e de outras instituições do país, da necessidade de mostrar o trabalho e a seriedade com que ele pode e deve ser feito, sem soluções mágicas ou mesmo técnicas “milagrosas” que infelizmente tantos profissionais de má fé utilizam. Surgiu, sobretudo da idealização de unir forças e trabalhos de pessoas sérias e comprometidas com o tema e acima de tudo, surgiu também como uma forma de tentar quebrar o silêncio e o tabu criados e temidos pela sociedade. Um “cala-boca” velado naqueles que sofrem e acham que precisam se calar em sua dor.


  1. Quais são as barreiras e dificuldades enfrentadas em relação a este tema?

As mais variadas possíveis. Como dito anteriormente, trabalhamos sobre um tema, senão O tema tabu de nossos tempos. Ao falarmos abertamente sobre morte e morrer, preocupamo-nos com a qualidade de vida das pessoas que são acometidas por suas perdas e propomos a discussão de formas e meios de trabalharmos estas perdas dentro da disponibilidade destas pessoas, coisa que leva tempo e exige um real interesse e entrega do profissional, coisas que em nossa sociedade atual não são consideradas, pois vivemos na era das respostas imediatas e soluções mágicas. O famoso, o quanto antes melhor.


  1. Como foi a realização do 1º Congresso Brasileiro sobre Morte e Morrer?

Foi um grande marco não somente para nós do Instituto Agilità, mas, sobretudo por termos conseguido agregar em um único evento pessoas e instituições diversas, de renome e que há muito tempo trabalham na área. Conseguimos, digamos, romper algumas barreiras para a expansão e discussão do tema nas mais diferentes esferas sociais.


  1. Qual a sua formação?

Sou psicólogo formado pela Universidade Católica de Pelotas, RS, com formação em Psicologia Hospitalar e da Saúde pelo NÊMETON-SP, coordenador de diferentes núcleos do Instituto Agilità, dentre eles, NESPEMM – Núcleo de Estudos, Pesquisa e Ensino em Morte e Morrer e atual presidente da SONATA – Sociedade Nacional de Tanatologia do Brasil.


  1. Durante a graduação os estudantes da área de saúde são preparados para enfrentar essas questões de morte e morrer?

Não gosto desta palavra “preparado”, acredito que ninguém, é preparado para nada, muito menos para lidar com tal temática. Agora, os cursos de graduação na área de saúde ainda são muito insalubres no lidar e estudar a morte e o morrer. Talvez até como uma forma de distanciamento e isolamento disso, cabe a famosa frase dita nestes cursos para vermos como estamos formando nossos profissionais, “Trabalhamos em prol da vida e não da morte” (sic), como se uma anulasse a outra e aceitamos que a morte é sempre ruim e deve ser esquecida.


  1. Como são os atendimentos destinados a este tema “Morte e Morrer”?

São baseados na psicoterapia de apoio e na terapia em si, sempre voltadas para a demanda que os pacientes trazem. Não trabalhamos com nada pronto ou pré-fabricado, justamente por acreditarmos que cada dor é única, cada perda é única e é difícil, senão impossível. Felizmente, diga-se, encaixarmos os sentimentos e pensamentos de seres humanos em uma fórmula ou numa técnica aplicável a todos de forma igual, por isso muitas vezes nosso trabalho é questionado, pois infelizmente, o mercado é cheio de profissionais sem ética alguma e que garantem estas “soluções mágicas”, onde as pessoas em sua fragilidade se apegam a qualquer falsa promessa apresentada.


  1. Existem outras culturas que lidam de forma diferente o tema da Morte. Por que na maioria dos países do Ocidente a morte é vista de forma tão negativa e pejorativa?

Pela nossa criação capitalista, onde o homem é aquilo que produz, a morte em nossa sociedade representa exatamente a não produção, o não ganhar e é vista como fracasso. Tanto do ponto de vista daqueles que estão a morrer como daqueles que “ficam”.


  1. Qual a influência da mídia sobre a percepção e influência na nossa sociedade?

A morte hoje, se tornou quase um espetáculo, gera ibope, gera curiosidade, o que poderíamos ver como benéfico, na verdade não o é. A curiosidade das pessoas pela morte alheia mostra exatamente um distanciamento sobre a percepção desta morte próxima, minha, pois, “não morrerei desta forma”. Casos como o da menina Isabella por outro lado, nos faz ver que ela pode ocorrer dentro da casa, com nossos conhecidos, e é mostrada e explorada pela mídia como foi feita. Nos mostra novamente aquela morte violenta, que assusta, que devo evitar de discutir e pensar.



  1. Uma mensagem final.

A temática Morte e Morrer é ampla e nos permeia no dia-a-dia, através das discussões e dos debates amplos em sociedade. Podemos mudar a forma de lidar com ela. Ao tomarmos consciência da finitude, passamos a paradoxalmente, apreciar e levar a vida de forma diferente, as questões, inclusive mais amplas de nossa sociedade passam a ser tratadas de forma mais profunda e séria, nossas atitudes e escolhas na verdade não são escolhas feitas para a vida, são escolhas com vistas a evitar a morte. É preciso e necessário que tiremos este véu velado e silenciado daqueles que estão a morrer e daqueles que sofrem com estas perdas. Buscar acolher e dar voz aos que sofrem sozinhos e em silêncio, nossas atitudes de vida devem trilhar o como queremos ou desejamos que os demais partam. Caso contrário, na hora em que acontecer conosco, e uma hora a morte vai nos encontrar, poderemos vivenciar o pior de nossos momentos e não precisa ser desta forma.

 

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Links Sobre Morte e Morre 


Artigo morte.pdf

Entrevista Morte.pdf